Exposição: O Império do Divino Espírito Santo no Médio Tejo

9 de Junho de 2019

As festas do Espírito de Santo dos Açores terão, com grande probabilidade, a sua génese na nossa região e nas terras confinantes com os rios Tejo e Zêzere, este último apontado como o rio do Espírito Santo.
A investigação acerca destas festas também designadas "do Paráclito ou Paracleto" estará presente na exposição do Centro de Interpretação Templário Almourol, em Vila Nova da Barquinha, e pretende demonstrar que o culto ao Divino estava enraizado nas populações e nas nossas tradições quer no tempo da Ordem do Templo quer no tempo da Ordem de Cristo. As mesmas faziam parte da nossa essência e eram vivificadas muito antes do achamento dos Açores. Certamente, e por consequência foram ali replicadas com todo o seu esplendor com o primeiro povoador das ilhas de Santa Maria e S. Miguel, Frei Gonçalo Velho Cabral, cavaleiro da Ordem de Cristo, comendador de Almourol, senhor de Pias, Cardiga e Beselga.
Certos estamos que a festa do Divino era um culto ancestral dos nossos antepassados, um acontecimento de princípios e valores humanistas, como são exemplos: a distribuição de alimentos pelos mais pobres, as refeições presenteadas e a comunhão entre próximos. Comportamentos que vivificam o sonho do homem solidário numa sociedade mais livre, fraterna e justa.
O descoberta do arquipélago dos Açores por Frei Gonçalo Velho Cabral foi uma obra gigantesca do alargamento do mundo físico e assentou, efetivamente, na sucessão dos esforços de liderança do comendador de Almourol que desvendou e venceu os terrores marítimos até alcançar mares nunca dantes navegados. A primeira expedição portuguesa que se pôde chamar de Descobrimento, foi a que enviou o infante D. Henrique, em 1416, à Terra Alta:
"Depois de empreender diversas viagens, ao longo da Costa de África, a sua caravela rumava ao Ocidente. Gonçalo Velho, familiarizado com a ciência náutica delineou o itinerário da primeira navegação científica - sem terra à vista e em pleno mar largo - da qual resultou o estudo das correntes marítimas, a descoberta da Terra-Alta e mais tarde Santa Maria"(1)
Dúvidas não restam que na epopeia dos Descobrimentos foi determinante o papel desempenhado pelo então comendador de Almourol, título que detinha desde o ano de 1426. Como sabemos existia uma ligação muito "íntima" da Ordem de Cristo, proprietária da Quinta da Cardiga a este novel projeto. Frei Gonçalo Velho, segundo os historiadores, era um homem audaz e desprezava a superstição de terror que, à data, se abatia sobre os oceanos. Naqueles tempos as lendas iam desde a imobilidade dos mares, das quilhas que se prendiam até à infestação de mostrengos de toda a espécie, que nas palavras de Fernando Pessoa foram convertidos em "tetos negros do fim do mundo". Mas, o comendador de Almourol era um homem com poder, valente e corajoso e rumou sempre mais adiante e mais além.
Conta-se que "... no ano do Senhor, de 1431, reinando em Portugal Ey-rei D. João de Boa Memória, décima em número e primeiro de nome, tendo o dito Infante, (D. Henrique) em sua casa um nobre fidalgo e esforçado cavalheiro chamado Frei Gonçalo Velho das Pias, comendador do Castelo de Almourol, que está sobre o Rio Tejo, arriba da vila de Tancos, de quem por sua virtude grande esforço e prudência tinha muita confiança, o mandou descobrir as ilhas dos Açores, a Ilha de Santa Maria, ou também, porventura a de S. Miguel: o qual, aparelhando um navio com as coisas necessárias para sua viagem, partiu no dito ano da vila de Sagres e navegando com próspero vento para o Ocidente, depois de passados alguns dias de navegação, teve vista de uns penedos que estão sobre o mar, e se vêm de Maria, e de uns marrulhos que fazem outros que estão ali perto, debaixo do mar, chamados agora todos - Formigas - nome imposto por ele ... e se tornou ao Algarve... no ano seguinte 1432 tornou o infante... a mandar o mesmo frei Gonçalo Velho a descobrir o que dantes não achara, dando-lhe por regimento, que passasse além das Formigas ... O qual Gonçalo Velho tornando a fazer esta viagem... houve vista de Ilha em dia de Ascensão da Nossa Senhora, 15 de Agosto ... e com grande contentamento de Gonçalo Velho e de seus companheiros foi celebrado aquele dia de Ascensão de Nossa Senhora com duas alegres festas..."(2)
Toda a Nação colaborou no nosso maior empreendimento, os Descobrimentos Portugueses, mas estes só foram possíveis graças às pessoas, aos meios e às técnicas de navegação e não por acaso ou sorte.
Se há alguém proeminente na génese dos Descobrimentos é, certamente, Gonçalo Velho, comendador de Almourol e da Cardiga, corajoso cavaleiro da Ordem de Cristo e egrégio companheiro do Infante Dom Henrique que, desde o cais templário do Zêzere, nesta nossa terra de Vila Nova da Barquinha e território, hoje designado por Médio Tejo, levou os seus barcos, a sua gente - e a tradição do culto do Divino Espírito Santo - para as ilhas de Santa Maria e São Miguel como tão bem se demonstra com a publicação da presente obra.

(1) Guia de Portugal Artístico, Açores - Robélia Sousa Lobo Ramalho, 13º Volume, 1946
(2) Gaspar Frutuoso, Saudades da Terra, Liv III, Santa Maria, ed. 1922

Nota Introdutória ao Catálogo da Exposição - Fernando Santos Freire, Presidente da Câmara Municipal

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