Exposição: Santoral e Liturgia Templárias à roda do ano

11 de Outubro de 2019

Nos tempos da Idade Média a fé cristã emanava no nosso território e aqui construíam-se magníficos templos, que ainda hoje podemos apreciar, como é exemplo a Igreja da Atalaia, Vila Nova da Barquinha, Monumento Nacional desde 1926, cuja traça foi elaborada por João de Castilho, sendo os programas decorativos do portal principal e do arco cruzeiro da autoria de João de Ruão, naquela que é uma das primeiras obras feitas pelo mestre normando em Portugal.
Nas nossas urbes e vilas circulavam pessoas e acolhiam-se viajantes, cruzados ou mercenários, homens de paz, artesãos e salteadores que calcorreavam a nação à procura do sustento material e espiritual.
Também na nossa região se cruzavam numerosos peregrinos recordando que a vida religiosa, o misticismo e a fé eram valores de elevada grandeza no quotidiano do homem medieval.
Desde meados do século XIII que todos os caminhos tinham um denominador comum: a atracção ao túmulo do Apóstolo Santiago, em Compostela, Espanha. Esta cidade passou a ser o segundo oráculo mais importante para o criscianismo, a seguir à cidade santa de Jerusalém. O fim seria o cumprimento de promessas, a remição dos pecados, o conhecimento de outras terras ou, simplesmente, a singela curiosidade humana.
O designado caminho central de Santiago passa por Santarém, Golegã, Cardiga, Vila Nova da Barquinha, Atalaia, Tomar e segue para Coimbra, onde se cruza com outros caminhos.
No nosso território, na era medieval, o caminho ou estrada romana era utilizado por gente simples, incógnita, santos e reis como por exemplo o grande rei Filipe II que, em 1580, vindo das Cortes de Tomar a caminho de Lisboa, descansou na Quinta da Cardiga. Aliás, tal caminho é referenciado muito antes, em 1302, por D. Dinis, que na sua carta de privilégios à Atalaia declara: "Dom Dinis per graça de Deus, Rey de Purtugal, e do Alguarve. A quamtos esta carta virem faço saber, ...façam hy duas povoras... Ceiceira, e a outro lugaronde chamam Atallaya no caminho...".
O caminho de peregrinação ou estrada real, ou estrada romana, era engrandecido com construções de apoio aos peregrinos como albergarias ou hospedarias e hospitais. Na Atalaia, Vila Nova da Barquinha, pelos inquéritos paroquiais de 1758 sabemos que tinha casa de Misericórdia e anexo com Hospital (albergaria, local de abrigo e hospedagem), para os passageiros e Casa para todo o religioso que vai de passagem, para poder pernoitar.
Também, a ermida da Nossa Senhora do Rocamadour, na Barquinha(1), era um pequeno espaço de liturgia e de meditação e albergue de peregrinos que se dirigiam a Santiago de Compostela.
A existência destas instituições "como expressão de caridade cristã, no exercício das obras de misericórdia, respondiam, de certo modo, aos ensinamentos do capítulo XI do livro V do Codex Calixtinus quanto à obrigação de acolher os peregrinos de Santiago, fossem eles ricos ou pobres"(2).
Apesar de já não ser possível percorrer o caminho ou estrada real na sua totalidade - porque a construção de novas vias e de habitaçôes apagou alguns percursos - hoje ainda podemos contemplar caminheiros de Santiago que fazem basicamente o mesmo percurso medieval. No mês de Agosto de 2019 este caminho foi marcado pelo município com placas toponímicas de percurso e informações, proporcionando condições aos peregrinos para alcançarem o túmulo de Santiago, lenitivo para a salvação das suas almas ou paz de espírito neste mundo, onde tudo parece girar em torno do binómio custo-benefício e pleno de actos de barbárie e de indiferença.
Todavia, é reconfortante reconhecer que na nossa sociedade também há pessoas, de vários credos e religiões, que se orientam pelo pensamento, generosidade e humanidade.
Certos estamos que os valores dos números, e da economia, são relevantes, pois o ser humano também tem necessidades materiais mas importa garantir o direito a uma cultura «correspondente à dignidade humana, sem distinção de raça, sexo, nação, religião ou situação social»(3).
A Cultura constitui um privilegiado âmbito de actuação nas sociedades contemporâneas, potenciador de inovação e de desenvolvimento, capacitador de múltiplas sinergias, criatividade e realizações na esfera do aprofundamento da plena cidadania.
Devemos evidenciar na sociedade actual a imagem visual crescentemente dominante e enquadrá-la na multiplicidade sensorial crítica e na complexidade conceptual histórica bem como efectivar a partilha de pensamentos num diálogo de religiões e civilizações.

(1) A primeira referência à ermida data do reinado de D. Manuel e diz respeito à sua administração "...das capellas que se acharão na leitura D'El Rei D. Manuel" Inventário dos que Bens eclesiásticos pertencentes ao padroado real ordenado em Julho de 1573 por D. Sebastião. Fontes Documentais Portuguesas III, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1971.
(2) Marques, José. Revista da Faculdade de Letras, História - Os Santos dos Caminhos Portugueses, 2006.
(3) CONCÍLIO VATICANO II, const. past. Gaudium et Spes, nº 60, AAS 58, 1966.

Prefácio ao Catálogo da Exposição - Fernando Santos Freire, Presidente da Câmara Municipal


Ordem do Templo Cavalaria Espiritual✠ Templarismo
 
Apresentação do Catálogo
Manuel J. Gandra

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